Nos últimos anos, a palavra “algoritmo” passou a frequentar com insistência as conversas entre escritores independentes. Ele aparece como ameaça, como promessa, como mistério e, muitas vezes, como bode expiatório. Quando um livro não vende, culpa-se o algoritmo. Quando um post não alcança leitores, culpa-se o algoritmo. Quando alguém tem sucesso, supõe-se que “aprendeu a jogar o jogo do algoritmo”. Nesse cenário, um erro silencioso se espalhou: escritores passaram a escrever para o algoritmo, e não com consciência do algoritmo . A diferença entre essas duas posturas é sutil, mas decisiva — e costuma separar projetos que crescem de projetos que se esgotam rapidamente. Escrever para o algoritmo parece, à primeira vista, uma atitude pragmática. O autor pesquisa palavras-chave, observa tendências, replica formatos que “funcionam” e adapta sua escrita para agradar sistemas de recomendação. O problema é que algoritmos não leem livros, não se emocionam com histórias e não constroem carr...
Uma das escolhas mais significativas que um escritor precisa fazer antes de dar corpo a sua narrativa é decidir em qual voz contar a história: primeira pessoa ou terceira pessoa. À primeira vista, parece uma decisão simples, quase técnica, mas na prática ela carrega implicações profundas para a construção da obra, para a forma como o leitor irá se conectar com os personagens e até mesmo para a maneira como a trama se desenvolverá. Escolher a perspectiva certa não é apenas uma questão de estilo, mas um elemento que molda a alma do texto. A primeira pessoa, aquela em que o narrador fala diretamente ao leitor utilizando o “eu”, é talvez a mais íntima das perspectivas. Ela aproxima, cria uma relação direta entre quem conta e quem lê. Ao mergulhar na mente do narrador, o leitor enxerga o mundo através de seus olhos, sente o peso de suas escolhas e vive suas contradições. Há uma honestidade particular nessa forma de contar, ainda que seja, muitas vezes, uma honestidade limitada. Isso ...