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O Valor da Palavra em um Mundo de Imagens Rápidas

Vivemos em uma era de estímulos incessantes. De stories que duram 15 segundos, de vídeos acelerados, de feeds infinitos que nos convidam a rolar sem pensar. Nesse contexto saturado de imagem, movimento e consumo, a pergunta que surge — com peso e urgência — é: por que ainda escrevemos?


Por que insistir na lentidão das palavras, na solidão da escrita, no silêncio criativo, quando tudo ao nosso redor grita por velocidade e aparência?
Escrever ainda faz sentido?

Talvez a escrita, hoje, seja menos um ofício e mais um ato de resistência. Escrevemos não para competir com o que é rápido, mas para cavar profundidade em meio ao raso. Escrevemos para nos lembrar de quem somos, do que sentimos, do que não pode ser comprimido em um vídeo de 10 segundos ou em uma frase de efeito.


A Imagem do Escritor no Instagram: Entre a Estética e a Realidade

Nos últimos anos, surgiram perfis e mais perfis dedicados à estética do escritor. Cadernos em papel reciclado, canecas com frases inspiradoras, fotos desfocadas de janelas chuvosas, citações de Virginia Woolf ou Clarice Lispector digitadas em fontes suaves, intercaladas com vídeos de “rotinas criativas” ao som de pianos lo-fi.

E não há nada de errado com isso — até certo ponto. O problema não está na imagem em si, mas na ilusão que ela propaga.

A estética da escrita nas redes sociais é encantadora. Ela promete um universo onde criar é leve, belo, prazeroso. Mas para quem escreve de verdade — dia após dia — esse retrato se distancia da realidade. Porque escrever é, muitas vezes, um ato de atrito. É enfrentamento com o vazio. É permanecer diante da incerteza por horas, dias, meses.

A estética online tornou a escrita “instagramável”, mas também a esvaziou de seu aspecto mais humano: a dúvida, a angústia, o cansaço. Tornou-se comum ver pessoas querendo “ser escritor” pelo lifestyle, pela aura intelectual, pela chance de ganhar seguidores com frases profundas e fotos bem compostas — mas sem o compromisso com o processo. Sem o mergulho na dor, na lentidão, no esforço criativo.

A escrita virou performance. Mas escrever, de verdade, não é performar. É escavar.


A Realidade da Escrita: Fracasso, Medo e Gesto Solitário

Escrever exige coragem. Não a coragem de se expor publicamente — isso é consequência, não objetivo. Falo da coragem de enfrentar a si mesmo. De ouvir a própria mente sem distrações. De tentar traduzir emoções que nem sempre têm nome.

Quem escreve de verdade sabe que existem dias de total bloqueio. Dias em que o texto não sai, em que tudo parece banal. Existem textos engavetados há anos. Existem dúvidas constantes: "isso é bom o suficiente?", "alguém vai se importar?", "pra que serve isso?". E, mesmo assim, a gente volta. Porque escrever não é sobre certeza. É sobre persistência.

Nas redes sociais, porém, essas nuances desaparecem. O que se vê é a vitrine: lançamentos, quotes bonitos, livros empilhados como se fossem troféus. Mas não se vê o fracasso criativo. Não se vê a ansiedade de não conseguir terminar um capítulo. Não se vê a insegurança de enviar um original para uma editora e receber silêncio em troca. Escrever não é bonito. É necessário. E talvez seja justamente por isso que vale tanto.


O Silêncio Criativo: Um Espaço de Reparo

Em meio a tanta exposição, existe algo que tem se tornado escasso: o silêncio.

O silêncio criativo é aquele momento em que nos afastamos dos holofotes. Em que escrevemos não para ser lidos, mas para nos escutarmos. Em que o texto não é conteúdo, não é engajamento, não é post — é só expressão.
É o caderno rabiscado, o arquivo não publicado, o diário escrito às escondidas.

Silenciar, hoje, é revolucionário. Criar no escuro, sem audiência, é um gesto raro e precioso. É como se disséssemos: “ainda posso existir sem que me vejam”.

O silêncio permite que a escrita floresça sem a pressão do julgamento. Ele devolve à palavra sua função mais pura: a de comunicar o intransmissível. Em silêncio, nos conectamos com nossa origem criativa. Voltamos a escrever como quando éramos crianças, sem medo, sem pauta, sem algoritmo.

Escrevemos porque algo dentro precisa sair — não porque queremos que todos vejam.


A Escrita Não Precisa Ser Útil

Outro impacto da lógica atual é a instrumentalização da escrita. Tudo precisa ter função. Um livro precisa “ensinar algo”. Um texto precisa “resolver um problema”. Uma publicação precisa “converter” em cliques, seguidores, vendas.

Com isso, o valor da escrita contemplativa, subjetiva, poética, filosófica — caiu em desuso. As pessoas querem respostas, listas, fórmulas. E se esquecem de que a escrita mais transformadora é, muitas vezes, aquela que não entrega nenhuma resposta, mas nos leva a fazer novas perguntas.

Escrever não precisa servir para nada. Pode ser só o que é: expressão, encontro, pausa. E isso já basta.


Por Que Ainda Escrevemos?

Voltamos à pergunta inicial: por que ainda escrevemos?

Escrevemos porque o mundo está barulhento demais. Porque a escrita ainda é uma forma de pensar com calma. Porque a palavra ainda resiste ao esquecimento.
Escrevemos porque temos medo. Porque estamos tristes. Porque estamos vivos.

Escrevemos porque ler nos salvou, e agora queremos devolver ao mundo um pouco dessa salvação.

Escrevemos mesmo quando ninguém lê. Mesmo quando os livros encalham. Mesmo quando os stories têm mais visualizações que um conto inteiro.

Escrevemos porque é impossível não escrever.


Um Chamado à Escuta

Se você também escreve — em cadernos, em arquivos secretos, em mensagens nunca enviadas — saiba que sua escrita importa. Mesmo que não viralize. Mesmo que não renda curtidas. Mesmo que ninguém veja. E se você lê — de forma profunda, curiosa, honesta — saiba que você está ajudando a manter viva uma cultura que está sendo sufocada por conteúdos rápidos e descartáveis.

Não se envergonhe de amar a palavra. Não se sinta ultrapassado por preferir o silêncio à exibição. Não ache que sua escrita precisa parecer com a dos outros para ser válida. A sua voz — imperfeita, íntima, real — ainda tem lugar no mundo.


Pela Palavra que Permanece

A escrita não precisa se adaptar ao algoritmo.
A leitura não precisa se tornar tendência.
A arte não precisa viralizar.
O que precisamos é de mais profundidade, intencionalidade e presença.
Que escrevamos para resistir, lembrar, sentir.
E que, acima de tudo, escrevamos para continuar sendo humanos em um mundo que tenta nos transformar em produtos. A palavra ainda é abrigo e esperança.


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