Nos últimos anos, a palavra “algoritmo” passou a frequentar com insistência as conversas entre escritores independentes. Ele aparece como ameaça, como promessa, como mistério e, muitas vezes, como bode expiatório. Quando um livro não vende, culpa-se o algoritmo. Quando um post não alcança leitores, culpa-se o algoritmo. Quando alguém tem sucesso, supõe-se que “aprendeu a jogar o jogo do algoritmo”. Nesse cenário, um erro silencioso se espalhou: escritores passaram a escrever para o algoritmo, e não com consciência do algoritmo . A diferença entre essas duas posturas é sutil, mas decisiva — e costuma separar projetos que crescem de projetos que se esgotam rapidamente. Escrever para o algoritmo parece, à primeira vista, uma atitude pragmática. O autor pesquisa palavras-chave, observa tendências, replica formatos que “funcionam” e adapta sua escrita para agradar sistemas de recomendação. O problema é que algoritmos não leem livros, não se emocionam com histórias e não constroem carr...
Há uma imagem persistente sobre o processo de escrever um livro que raramente corresponde à realidade. Ela costuma envolver inspiração constante, clareza absoluta desde a primeira página, prazer contínuo e uma sensação quase mística de “estar no caminho certo”. Essa imagem é repetida em entrevistas, redes sociais e discursos públicos, não necessariamente por má-fé, mas porque o que sustenta a narrativa do escritor costuma ser o resultado final, não o percurso. O que quase ninguém conta é que escrever um livro é, na maior parte do tempo, uma experiência desconfortável, confusa e profundamente silenciosa. E é justamente por isso que tantos desistem no meio do caminho. O primeiro ponto pouco dito é que a ideia inicial raramente sobrevive intacta ao processo. Aquilo que parece brilhante na concepção costuma se mostrar insuficiente, raso ou inviável quando confrontado com a necessidade de sustentar dezenas ou centenas de páginas. A escrita expõe fragilidades conceituais. Um personagem...